Publicado por: Blog do Trio | 17/10/2011

Quem tem medo da transparência? – parte 2

Nação Corinthiana,

Conforme publicado aqui anteriormente, conselheiros do Corinthians, capitaneados pelo presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Senger, têm cobrado da direção do clube a divulgação das informações sobre a construção do estádio em Itaquera, bem como a apresentação do contrato assinado com a construtora.

Isso porque o próprio presidente Andrés Sanchez já admitiu que a obra custaria por volta de R$ 1 bilhão, bem acima do valor do projeto aprovado em reunião do Conselho, sob a promessa da diretoria de não gerar qualquer ônus ao Timão e orçado em R$ 335 milhões.

Na última sexta-feira, o site oficial do Corinthians publicou uma nota retrucando as alegações de Senger.

No texto, a diretoria afirma que “jamais se furtou e jamais se furtará a prestar as devidas informações sobre quaisquer questionamentos formulados por Conselheiros” (sic), mas não responde às questões levantadas sobre a obra. Na tentativa de justificar a omissão dos detalhes do contrato, informa que o mesmo teria sido assinado pelo presidente do Conselho Deliberativo.

Sobre o assunto, Carlos Senger emitiu nova nota, conforme publicação do Estadão transcrita abaixo:

Conselho do Corinthians cobra contrato definitivo para o Itaquerão


Presidente do Conselho afirma que clube tem apenas um pré-contrato repleto de ‘lacunas’

SÃO PAULO – O Itaquerão, estádio do Corinthians que será anunciado nesta semana como palco da abertura da Copa de 2014, tem apenas um pré-contrato assinado com a Odebrecht e virou alvo de embate entre o Conselho Deliberativo do clube e o presidente Andrés Sanchez.

O Conselho cobra que seja divulgado o contrato definitivo entre a empreiteira e o clube, além de uma série outros pontos considerados por eles como obscuros.

Por sua vez, a diretoria se defende e diz que está disposta a prestar esclarecimentos aos conselheiros.

O ponto de discórdia é quanto a assinatura do contrato, ratificado por clube e empreiteira no dia 1.º de setembro, em festa realizada no Itaquerão com a presença do ex-presidente Lula.

O Conselheiro Deliberativo garante que tudo não passa de um pré-contrato, “com imensas lacunas”, segundo o presidente do Conselho Carlos Senger, que assinou o documento, em nota divulgada nesta segunda-feira (leia a integra abaixo).

“Impõem-se – só para ficarmos num item – que todo o Conselho seja informado, por exemplo, dos termos em que o eventual empréstimo junto ao BNDES será tomado. Com que juros, com que prazo, com que garantias, com quais riscos?”, afirma Senger.  “Aliás, a quantas andam este vultoso contrato? O empréstimo já foi solicitado formalmente àquele orgão? Foi concedido?”

Essa é a segunda manisfestação pública do conselho em um mês cobrando a diretoria e o presidente Andrés Sanchez sobre o contrato do Itaquerão.

primeira nota do Conselho, divulgada no dia 7 de outubro, desencadeou uma resposta de Andrés Sanchez na última sexta-feira. A “batalha” pode terminar no Conselho numa reunião extraordinária. A cobrança maior dos conselheiros, em especial os da oposição, diz respeito ao custo final da obra, que poderá ultrapassar R$ 1 bilhão.

A Fifa irá confirmar nesta semana que o estádio do Corinthians será o palco da abertura da Copa do Mundo. O anúncio oficial será feito na Suíça até esta quinta-feira, informa a entidade. O presidente Andrés Sanchez, segundo sua assessoria, não irá participar do evento.

Leia abaixo a íntegra da nota do presidente do Conselho Carlos Senger:

NOTA OFICIAL

O cargo de Presidente do Conselho Deliberativo do S. C. Corinthians Paulista requer de quem o ocupa discernimento, senso de responsabilidade e equilíbrio.

 
Mas, também, impõe a quem foi constituído nesta posição por livre vontade dos conselheiros, em eleição democrática, firme posicionamento sobre tudo quanto diz respeito e pode interferir na vida econômica e financeira do clube. Vigilância e fiscalização, sempre, é o que se espera de quem exerce minha função.
 
Por isso, mantenho a serenidade e o nível, ao responder à Nota “explicativa” da diretoria que, sinceramente, não acredito expresse o sentimento pessoal do Presidente Andrés Sanchez.
 
Certamente, pressões de neófitos na vida do clube, açodados e pouco afeitos a enfrentar o contraditório, produziram uma peça tão inócua quanto desnecessariamente agressiva. De fato, o estilo contido na mesma não é o do Presidente Sanchez, a quem trato e tratei com respeito e consideração em minha manifestação anterior.
 
Entendo que a formalidade do seu cargo, senhor Presidente, muitas vezes torna inevitável, mesmo contra sua vontade, a “produção” de tão infeliz resposta às minhas indagações. Que, acredite, também o são da grande maioria dos conselheiros e associados. 
 
Porém, vamos ao que interessa.
 
A Nota “explicativa” da diretoria peca fundamentalmente na sua estrutura argumentatória.
 
1. Em primeiro lugar, não é a figura de Carlos Senger que está em discussão.
 
Sem falsa modéstia, meus quarenta anos de serviços ao clube e minha reputação ilibada estão acima de ataques menores e sem base alguma. Querer atingir-me, como insiste o raivoso redator da Nota, é tentar desviar o foco do que realmente importa: abrir a Caixa Preta em que acabou se tornando o assunto estádio Itaquerão.
 
2. Em segundo lugar, porém não menos grave, é esconder deliberadamente no texto da Nota “explicativa” o fato de que o que foi assinado em relação ao estádio foi apenas um PRE-CONTRATO, com imensas lacunas de informação, como, aliás, é comum nos PRE-CONTRATO.
 
Chamá-lo repetidas vezes de CONTRATO na aludida Nota demonstra falta de cautela e mesmo má-fé na tentativa da explicação do inexplicável. Em linguagem jurídica isto se classifica como “Indução a Erro”.
 
Pois foi justamente com o compromisso de recebermos um CONTRATO DEFINITIVO que atendemos aos insistentes pedidos do Presidente da diretoria para que colocássemos nosso timbre pessoal naquele instrumento.
 
Com muita humildade, graças à dedicação integral e trabalho me tornei Procurador da Justiça, Professor Universitário no Brasil e no exterior, jurista por formação e por vocação. Por conta disso, aprendi no meu primeiro ano de Faculdade a discernir o que é uma simples peça preparatória, introdutória e manifestação das partes em realizar um determinado negócio, como é o espírito de um PRE-CONTRATO, de um CONTRATO definitivo, onde objetos específicos, prazos, valores, formas de pagamento e de recebimento, deveres, concessões, direitos, multas, peças acessórias e anexas, como planilhas, por exemplo, além de inúmeras outras avenças são pormenorizadamente explicitadas.
 
CONTRATO assim, entre o Corinthians e a empreiteira do Itaquerão, como é óbvio, e do conhecimento geral, não existe.
 
Ou pior: se existe, não foi nunca a mim apresentado e muito ao Conselho Deliberativo. 
 
O que cobramos agora é, pois, exatamente o cumprimento da promessa feita quando da assinatura do PRE-CONTRATO. E isto está muito claro em nossa primeira NOTA OFICIAL. Em cada parágrafo, em cada linha, em cada palavra, em cada vírgula da mesma.
 
3. Por fim, registre-se: 
 
O essencial, reclamado em minha Nota anterior, permanece sem elucidação.
 
Não há informe sobre os custos reais da obra e sobre quem vão recair as responsabilidades da empreitada.
 
Impõem-se – só para ficarmos num item – que todo o Conselho seja informado, por exemplo, dos termos em que o eventual empréstimo junto ao BNDES será tomado. Com que juros, com que prazo, com que garantias, com quais riscos?
 
Aliás, a quantas andam este vultoso contrato? O empréstimo já foi solicitado formalmente àquele orgão? Foi concedido?
 
Estas questões fundamentais permanecem em aberto. Nada foi esclarecido. Nada foi relatado a respeito.
 
O que foi dito no Conselho Deliberativo pelo diretor que se auto-intitulou coordenador único deste projeto de grande vulto e importância para o Corinthians, não passou de generalidades, sem nenhum apoio documental, como todos sabem. A se comparar valores que ali foram apresentados por outros que foram publicadas na sequência, inclusive pela diretoria, sem nenhuma contestação oficial, a diferença é abismal. 
 
Daí a necessidade de se esclarecer os conselheiros.
 
Caro Presidente Sanchez, quando em nossa Nota Oficial anterior afirmamos que o momento era o de união e de nos estendermos as mãos, o movimento era de extrema sinceridade. Continua sendo.
 
Já quando encerramos a nossa mensagem anterior, com o pensamento do grande pensador católico Santo Agostinho, que nos recomenda preferir “aqueles que me criticam, porque me corrigem; àqueles que me adulam, porque me corrompem”, foi por justamente acreditar na existência de pessoas capazes de incitar a discórdia e cultivar a soberba. Seja com maus conselhos, seja com Notas “explicativas” divagativas, prolixas, redigidas com falta de cuidado no contéudo e na forma.
 
O Corinthians, enfim, é maior que todos nós, senhor Presidente. Estamos de passagem pelo clube. Façamo-lo de modo honrado e principalmente PRESTANDO CONTAS, sempre que solicitados e sem nos exasperarmos com as cobranças, considerando-as parte de nossa agenda.
 
É a obrigação de quem está no poder.
 
 
Carlos Senger
Presidente do Conselho Deliberativo
Sport Club Corinthians Paulista

* * *


A foto abaixo mostra o momento da assinatura do aludido contrato da obra do estádio do Corinthians, com a presença do ex-presidente Lula.

Uma análise mais aprofundada da foto mostra que o documento segurado pelo presidente Andrés Sanchez possui apenas DUAS folhas.



Tendo em vista a magnitude da obra e todos os detalhes que envolvem um contrato deste tipo, é praticamente impossível que ele pudesse ser condensado em apenas um par de folhas.

Verifica-se, portanto, que o documento assinado naquele momento seria um pré-contrato, ou seja, uma mera avença através da qual as partes demonstram o interesse de celebrar um contrato definitivo.

Então restam as perguntas: Por que a diretoria não exibe o contrato definitivo da obra? Quais os valores envolvidos no negócio? Quem irá pagar? Qual a dívida a ser arcada pelo Corinthians?


fabio.sallum@blogdotrio.com.br

http://twitter.com/FabioSallum

http://www.formspring.me/FabioSallum

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Responses

  1. Fábio Salum: What a shame!

    ………

    “Sobre a nota da diretoria, eu não me manifestei porque o texto não esclarece absolutamente nada. Apenas retruca, de maneira grosseira, as declarações do presidente do Conselho, sem explicar o valor da obra, quem vai pagar ou qual a porção da dívida que será arcada pelo Corinthians”.

    Shameful!

    … Você me parece uma pessoa inteligente e esclarecida, então acredito não ter dúvidas do porque estar escrevendo isto…

    Abs/Ednei

    Fábio Sallum: Ednei, a minha única preocupação é saber quanto do débito do estádio será arcada pelo Corinthians, que já possui uma dívida altíssima.

    As pessoas não estão dando importância a isso agora, mas a conta pode chegar nos próximos anos.

    Aí, com o clube endividado, como vamos contratar jogadores, manter o estádio e tudo mais?

    A obra é de extrema importância para o Timão, mas não restou explicado o motivo do aumento do valor e nem quem vai pagar a fatura.

    A questão aqui é sobre a responsabilidade em relação às contas do clube, independente de discussão política.

    Abraços!

  2. Muita esclarecedora essa notícia do Estadão!

    E parabéns pela observação!! Será que ninguém viu isso??

    Por que o valor do estádio subiu tanto assim? Tem alguma coisa errada aí e, como sempre, quem vai ter que arcar com a conta é o Timão!

    Fábio Sallum: Essa é a minha maior preocupação.

    A diretoria só está colhendo os frutos do oba-oba do estádio, mas não está mostrando a fatura à torcida.

    E isso deve refletir dentro de campo nos próximos anos.

    Abraços!

  3. Eu tinha achado estranho o fato de você não ter falado sobre a nota oficial do clube, mas agora entendo o porquê: o Andrés falou, falou e não disse nada!

    Preferiu ficar com briguinha política ao invés de esclarecer as questões levantadas pelos conselheiros e associados!

    Parabéns a todos do Blog do Trio!

    Fábio Sallum: Que bom que você compreendeu, Carlos!

    Obrigado pelo incentivo ao Blog!

    Abraços!

  4. Salum,

    Como assim vc não sabe quem vai pagar a obra?
    Vc sempre esparramou por aqui que não haveria dinheiro público na obra, então, não devia ter essa dúvida. Devia saber que o corintians ia ter que pagar tudo. Sua duvida sobre o pagador acaba sendo uma confissão de aprovação do uso de dinheiro alheio. Sinceramente, acho decepcionante alguem achar que esta fazendo uma obra, vai se beneficiar dela, mas não queira pagar.
    Vc devia estar bravo é como cidadão e não como corintiano.
    Em tempo, NENHUMA empresa do mundo tem tanto dinheiro em caixa para tocar uma obra como essa porque seria prejuizo manter uma grana dessa parada em c/c ou em ativos de altíssima liquidez, assim, a origem da grana já gasta na obra é necessariamente dinehro não declarado. Ou da mafia russo, via Jose Dirceu/Kia ou de desvios de dinheiro público, de outras obras que estão sendo tocadas pela construtora, via lula e seus tentáculos. Não sei como vc pode apoiar uma coisa dessas.

    Fábio Sallum: Jair, não há nenhum indício de que a obra esteja sendo realizada com dinheiro público.

    Não houve, até o momento, qualquer doação de erário público ao clube ou à construtora.

    O grande medo é o grande endividamento que a obra pode causar ao clube, visto que não foi ainda justificado a efetiva razão do aumento do valor da construção, nem como será paga.

    Abraços!

  5. Marcos, se for assim, a coisa pode ser pior do que parece….o Andres levou para a tal reunião da foto, só a página em que deveria colher as assinaturas e quem assinou, não observou essa armadilha, que pode até ter colocado o próprio patrimônio do clube na hipoteca.

  6. Cumpadre, parabéns pelo tirocínio ! Você matou a pau ! Percebeu um detalhe que ninguém ainda havia se atentado. Se o tal Contrato fantasma tem 60 folhas, cadê o resto? Será que era só uma folha de presença ?

  7. Fábio,

    Para deixar mais claro o que o Marcos falou…

    DE PRIMA
    Publicada em 14/10/2011 às 21:17
    “O contrato tem 56 páginas e a assinatura do presidente do Conselho está aqui. Agora tem que explicar como assinou sem ler.”- Sérgio Alvarenga, diretor jurídico do Corinthians, negando que o documento assinado com a Odebrecht seja um pré-contrato.

    …..

    A minha crítica e acredito que você deva ter entendido bem pela sua inteligência é a mesma – com ressalvas, do Carlos Roberto…
    Porque todo o destaque nas duas vezes – inclusive a de ontem você postou na mesma hora que foi divulgado pelo Juca no “Linha de Passe” da ESPN, sobre a nota e a contra-nota do presidente do Conselho e em momento algum você aqui se dispôs a expor a resposta da Diretoria e, somente agora divulgou o link da matéria…

    Claro que quero saber também destes fatos, mas tem que ser ouvidos os dois lados e não somente “acreditar cegamente” no que diz um ou outro… Lembro ainda que, apesar da “reportagem” da revista Época, lá no início, saíram vários artigos – vou tentar localizar um no UOL, com o Andrés deixando bem claro que o orçamento da Odebrecht era superior a 1 bilhão e todos os esforços seriam feitos para baixar e se situar no patamar do original – entre 780 e 820 mil, não lembro exatamente.

    Abs/Ednei

    Fábio Sallum: Ednei, eu apresentei pra você em resposta a outro post o motivo pelo qual não me manifestei sobre a referida nota oficial do clube, que nada explicou sobre os questionamentos levantados.

    Sobre o valor, eu mesmo reproduzi o trecho em que o Andrés disse que pagaria à construtora o valor de R$ 780 milhões.

    O problema é que, a cada semana, é divulgado um valor diferente da obra, que já chegou a ser cogitada em até R$ 1,5 bilhão.

    Portanto, entendo que se faça necessário o esclarecimento sobre os reais custos da obra, para que possamos entender o que efetivamente gerou tamanho salto no valor.

    Mais do que isso, é preciso saber qual será o grau do endividamento que a obra custará ao clube, o que pode comprometer as contas corinthianas por anos ou até décadas.

    Tudo isso precisa ser tratado com responsabilidade, independente de quem está no comando do Corinthians.

    Até porque a conta começará a ser paga apenas pelo próximo presidente, seja ele da situação ou da oposição.

    Abraços!

  8. Fabio, eu li no Lance que o contrato da obra do estádio tem 56 páginas!

    http://www.lancenet.com.br/de-prima/Alvarenga-Contrato-Odebrecht-paginas_0_572342952.html

    Se isso for verdade, então o documento que o Andrés segura não é o contrato do Itaquerão!

    ALÔ DIRETORIA!! VAMOS MOSTRAR ESSE CONTRATO!!


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